sábado, 31 de março de 2012

embriaguez sonora

Lá fora o som dos acordes chega como sopro calmo a meus ouvidos. a melodia navega tranquilamente diante de um mar agitado. cada gole de vinho é um coração que descansa, respira e dança. náuseas, tonturas, vertigens.
a viagem é longa 
(já não importa)
tem música
e bebida suficiente


T.O.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

zabumba dentro do peito

"Você parece ter um bom coração". Essa foi a frase que eu ouvi do conhecido rosto daquele cobrador. Era plena quinta-feira pela manhã e eu entrava - estabanada como sempre- naquele ônibus tentando equilibrar-me enquanto procurava o bilhete único que mais uma vez havia sido abduzido e levado para o reino das mochilas bagunçadas. Não sei se aquele moço achou engraçado meu jeito descoordenado de ser, o meu desespero momentâneo procurando o cartão ou os tantas outras canhotices que me fazem ser motivo de piada entre os amigos. Mas isso, de qualquer forma, não justifica em nada o meu "bom coração". Na hora, admito, não disse nada. Dei aquele sorrisinho tímido enquanto olhava de canto do olho um senhor rir daquela situação como se dissesse para si mesmo: "xi, olha lá, ela tem um bom coração, coitada. e as pessoas já estão até percebendo...". Sentei longe do campo de visão de ambos, questionando-me porque raios o homem que eu pouquissimo tinha visto na vida havia me dito aquilo.Talvez porque eu tivesse cedido o lugar para algum idoso ou dado bom dia para o motorista, mas, sinceramente, nem isso eu me lembro de ter feito. E mesmo se  fosse, ora, muitas pessoas fazem isso por dia e nem todas tem um bom coração- como o meu? risos. Imaginei que talvez fosse uma cantada do moço, mas depois daquele momento eu só consegui pensar que estava exalando carência, que dali a alguns segundos alguem viria me abraçar e dizer que é legal ter um bom coração e que ser carente também não é de todo mal. E então outro diria para eu não sofrer por ser assim como eu sou, por amar demais, por querer mostrar isso para pessoas, porque sempre teria alguém que reconheceria esses valores, nem que fosse, seila, um cobrador de ônibus. Claro que não deixei de imaginar também todos ali me olhando como se eu fosse um alienígena amante em meio a uma sociedade sem coração, mas acabei dormindo com meus pensamentos e aceitando o fardo mesmo sem saber o que isso significaria. Acordei assustada exatamente no local em que iria descer e quando pensei que era tarde e  teria que voltar a pé um quarteirão no sol do meio-dia, o ônibus magicamente parou sem que ninguém tivesse dado o sinal . Olhei para o motorista pelo espelho acima da porta traseira e dei um sorriso de agradecimento. Ele contribuiu com uma piscada e certamente pensou: "não se engane, isso sim é ter um bom coração". 

domingo, 8 de janeiro de 2012

fire to the rain

Olhou para o alto almejando que cada gota daquela chuva pudesse lavar-lhe a alma. Esperou cada pingo acariciar lentamente o seu rosto, ainda que naquele momento fosse incapaz de distinguir o que era chuva, choro ou resquícios salgados de um mergulho no mar. Se deixassem, ficaria ali: pulando, correndo, gritando. Ou dançando como se aquela fosse a última música que passaria por seus ouvidos. Já não sabia como mostrar tudo o que gritava em seu coração e os pensamentos que não lhe fugiam da cabeça um minuto sequer. No entanto, voava um voo tão alto que demoraria a pousar. Aqueles dias puderam despertar ainda mais vontade de viver, sentir e deixar-se levar. Mergulhou, como numa tentativa inútil de esconder o que lhe parecia tão óbvio mas custava enxergar. Contou até dez, e, enquanto as ondas encharcavam o seu vestido já transparente, implorava para que o medo pudesse deixá-la de lado nem que fosse por instantes. Quando, enfim, olhou para o céu, pediu para que tudo iniciasse de maneira diferente. Há quatro segundos para o início do fim e de um (re)começo, deixou seus olhos procurarem por fatais abraços molhados. Foram minutos de explosão. Milhares de luzes mostraram que tudo realmente poderia mudar e, sim, seria possível deixar-se sentir. Reprimiu momentaneamente uma vontade de abraçar o mundo, que naquele instante tinha nome próprio, mas ainda assim estava feliz. percebeu que esse seria um novo ano novo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

todo sentimento



Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu

Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu

domingo, 4 de dezembro de 2011

tempo escondido

Acordei assustada com o badalar dos sinos e o piscar das luzes que em alto e bom som dirigiam-se a mim: Ei, já chegamos. Não percebeu? Acho que não. Talvez eu tivesse dormido tanto que essas coisas não eram capazes de me tirar o sono. De fato eu não havia notado que tudo estava mais colorido, que surgiam novos cheiros e sons tentando de qualquer maneira chamar minha atenção - em vão, admito. Sempre lutei contra o individualismo, mas nesse momento eu percebo o quão egoísta eu fui durante todo esse tempo em que muitos procuraram me mostrar que as coisas são mais do que simplesmente eu. Não é minha culpa, eu dizia. Pensar nos meus problemas, nos meus afazeres, na minha vida, na minha correria não era uma maneira de querer mostrar que sou melhor ou pior, mas sim uma imposição da mente- aquela velha história. Ora, passou um ano e eu vivi, pelo menos existi. Mas e todo o resto? Calma, dizia Ela para me confortar. Pense em como o seu ano foi produtivo, novos projetos, construção de novas amizades importantíssimas, responsabilidades, amadurecimento. Ah, sim, isso não tenho como negar, sei que cresci, que consolidei muitas coisas em mim. Mas e o resto? eu insitia. Isso não basta? Não sei, ainda tropeço diariamente nessa angústia que comigo sempre caminhou, mesmo que eu lute. E Ela sabe, eu luto. Mas isso já não importa, as luzes estão piscando, logo terão brilhos caindo do céu, ondas puladas e pasme: mais um ano. Não pense que estou triste, sei que o mundo não vai acabar em 2012.  Reflito apenas como muitas coisas passam despercebidas a nossos olhares, como corro contra um tempo escondido esperando os novos brilhos no céu, novos vestidos brancos e tudo simplesmente acontece. Sabe, Ela sempre quis me proteger. Queria que eu tivesse um sono tranquilo e que não visse passar ao meu lado toda aquela angustia trazida pelas olheiras e rostos suados da capital. Em partes, trabalho bem feito. Dormi e dormi e sonhei, no entanto, eu também tinha olheiras. Mal sabe Ela que eu nunca precisei de ajuda, que é mais fácil estar acordada e viver de fato ao invés de dormir abraçada em egoísmo. Mas não se desespere, acordei a tempo de sentir o cheiro das velinhas queimando, de fazer pedidos e escrever cartões.

domingo, 13 de novembro de 2011

solitude

na minha solidão mando eu
na minha solidão quem sou eu

na história desse rio eu sou o mar
na história desse céu eu sou o azul
vem que o vento não me tira do lugar
passa nuvem passa sol
e eu fico

pra você que tem medo de mar
pra você que tem medo de amar
pra você que tem medo de amor
e de alegria

pra você que tem medo de mar
pra você que tem medo de mata
pra você que tem medo de amor
e de alegria