terça-feira, 24 de julho de 2012

verdade


e se o caminho é se acostumar
melhor atrever-se
atrevo-me a não mentir 
por mais mentira que isso seja

minto se digo que não tento
se digo que não sinto
minto

se ouso dizer
que teu perfume
não mora em meu pulmão
e que não falta pro meu corpo
um entrelaçar de braços

não minto, entretanto,
pro meu pensamento.
juntos sabemos 
qual é a verdade


T.O.

domingo, 15 de julho de 2012

aquela mulher

Conversávamos ainda hoje, isso tudo é um ciclo. Essa história de sentir angústia, mas não querer que ela esteja presente e ao mesmo tempo desejar sentir a dor do outro por não querer vê-lo sofrer. Isso acontece conosco. Dizem - e você é uma dessas pessoas - que os jovens de hoje são muito ansiosos e preocupados com o que ainda nem aconteceu. Sabes o quanto eu já sofri por ser o exemplo clássico de um desses jovens, o quanto já descontei em você todos os meus medos e inseguranças. Não peço desculpas, pois sei que não aceitaria, dirás que você está aqui pra isso; e eu sempre soube. Abri o olho, naquele fim de novembro e eu já sabia. Por mais que eu não me recorde, sei que estava feliz por estar em teu colo. Aquele mesmo colo que durante algum tempo da minha infância eu chorei por não querer desprender-me. Você sabe, ainda hoje, quantas vezes desejo esse colo, talvez porque tenha ficado um resquício do cordão umbilical. Não pense, porém, que sou frágil. Se quer saber, herdei de você a mais profunda vontade de viver e de ser forte. Herdei, se posso assim considerar, a vontade de amar as pessoas e demonstrar isso a elas. Herdei um prazer em me dedicar às coisas que me fazem feliz e mostrar que cada gesto faz sim diferença. Herdei também esse sentimentalismo exacerbado e a canela fina, mas isso a gente deixa pra outra ocasião. Dizer que te amo muito é pouco, se essa tela fosse um papel, talvez estivesse encharcada. Isso significa que herdei também a sua sensibilidade, ou se preferir, manteigaderretidisse. Até que não estou mal, quem sabe quando chegar na sua idade não consigo ser um milésimo do que você é.   






para Mayra Ozzetti. 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

sem título


Não se assuste com a frieza das minhas mãos
você sempre soube que a única parte quente do meu corpo
é aquela que bate constantemente do lado esquerdo do meu peito. 
não esqueças que estamos quase no inverno
mas não, eu não quero que me esquente.
o frio chega aos poucos e também aos poucos se infiltra pelos poros
que ainda estão presos naquela outra pele
e como se quisesse congelar o que ainda está protegido pelo calor do sangue
traz silêncios, descobertas, enganos e saudades.
ei, você não pode fazer nada por mim
eu preciso me cobrir de verdadeiros sentimentos. 
hoje eu desejei o deserto 
mas sei que não preciso esperar o verão,
tão logo o sol aparece e aquece todo o resto.

domingo, 13 de maio de 2012

E se

Se me finjo
É porque te quero

Se te quero
É porque me sinto
Se te sinto
É no pensamento
Se te penso
É porque não nego
Se te nego
É pelo medo
Se me digo
É porque percebo
Se te choro
É porque calo
Se me calo
É porque fujo
Se te fujo
É pra me encontrar


T.O.

sábado, 31 de março de 2012

embriaguez sonora

Lá fora o som dos acordes chega como sopro calmo a meus ouvidos. a melodia navega tranquilamente diante de um mar agitado. cada gole de vinho é um coração que descansa, respira e dança. náuseas, tonturas, vertigens.
a viagem é longa 
(já não importa)
tem música
e bebida suficiente


T.O.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

zabumba dentro do peito

"Você parece ter um bom coração". Essa foi a frase que eu ouvi do conhecido rosto daquele cobrador. Era plena quinta-feira pela manhã e eu entrava - estabanada como sempre- naquele ônibus tentando equilibrar-me enquanto procurava o bilhete único que mais uma vez havia sido abduzido e levado para o reino das mochilas bagunçadas. Não sei se aquele moço achou engraçado meu jeito descoordenado de ser, o meu desespero momentâneo procurando o cartão ou os tantas outras canhotices que me fazem ser motivo de piada entre os amigos. Mas isso, de qualquer forma, não justifica em nada o meu "bom coração". Na hora, admito, não disse nada. Dei aquele sorrisinho tímido enquanto olhava de canto do olho um senhor rir daquela situação como se dissesse para si mesmo: "xi, olha lá, ela tem um bom coração, coitada. e as pessoas já estão até percebendo...". Sentei longe do campo de visão de ambos, questionando-me porque raios o homem que eu pouquissimo tinha visto na vida havia me dito aquilo.Talvez porque eu tivesse cedido o lugar para algum idoso ou dado bom dia para o motorista, mas, sinceramente, nem isso eu me lembro de ter feito. E mesmo se  fosse, ora, muitas pessoas fazem isso por dia e nem todas tem um bom coração- como o meu? risos. Imaginei que talvez fosse uma cantada do moço, mas depois daquele momento eu só consegui pensar que estava exalando carência, que dali a alguns segundos alguem viria me abraçar e dizer que é legal ter um bom coração e que ser carente também não é de todo mal. E então outro diria para eu não sofrer por ser assim como eu sou, por amar demais, por querer mostrar isso para pessoas, porque sempre teria alguém que reconheceria esses valores, nem que fosse, seila, um cobrador de ônibus. Claro que não deixei de imaginar também todos ali me olhando como se eu fosse um alienígena amante em meio a uma sociedade sem coração, mas acabei dormindo com meus pensamentos e aceitando o fardo mesmo sem saber o que isso significaria. Acordei assustada exatamente no local em que iria descer e quando pensei que era tarde e  teria que voltar a pé um quarteirão no sol do meio-dia, o ônibus magicamente parou sem que ninguém tivesse dado o sinal . Olhei para o motorista pelo espelho acima da porta traseira e dei um sorriso de agradecimento. Ele contribuiu com uma piscada e certamente pensou: "não se engane, isso sim é ter um bom coração".