segunda-feira, 8 de abril de 2013

era uma vez...


e novamente se perdeu. ali, sentada debaixo da sombra da janela, olhou com rancor para o passarinho que pousava ao seu lado. a ave, já bem alimentada, mirava o chão ausente de farelo. "não me olhe desse jeito", disse. "você não precisa dessas migalhas". e  num misto de canto e sussurro, completou: "elas não vão te dar o caminho".



sábado, 6 de abril de 2013

do zero



E se deixássemos essa história pra outro dia?
Podíamos, enquanto isso, tocar atabaques 
fazer piqueniques
dançar maculelê
e rodar vestidos floridos 

E se deixássemos esse silêncio pra outro momento?
quem sabe podíamos cantar mais tempo no chuveiro
talvez sobrassem uns minutos 
pra ouvir da janela as maritacas 
altos decibéis do som do carro
e piano tocado a quatro mãos

E se fingíssemos por uns instantes que não nos conhecemos?
podíamos, talvez, rir por longos minutos
dar abraços totais
fazer piadas toscas
e apresentar nossas famílias


E se deixássemos a irritação pra semana que vem
Ou a mágoa para um futuro mais distante?
podíamos, então, ser escritos a lápis
ter um coração de borracha
e memória de elefante




T.O.














domingo, 17 de março de 2013

poesia é não


"reverto o verso
refaço o traço
reciclo o ciclo
divirto o pão e o circo

refazer o essencial
deter o comercial
retificar o final
verter suor e sal"


Conseguiu.











segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

globa(na)lização do afeto




Enganava-se. Já haviam dito que pensar não era fácil, nunca seria. Porque então insistia em dizer que esse era o melhor caminho? Talvez isso trouxesse à tona o que estava ali, guardado a sete chaves naquele labirinto profundo, em cada palpitação intensa do seu coração. Certamente também não seria tarefa fácil tirar isso do inconsciente e deixar chegar aos olhos.  Mas ela sabia que tudo o que tinha vivido não poderia ser deixado de lado. No fundo insistia em fazê-los pensar por ter a certeza que não esqueceriam tão cedo de tudo o que haviam dito. Ou não dito, o que era ainda mais simbólico. Ela sabia, e não porque era leitora assídua de poesia, mas porque tinha a esperança de que todas aquelas conversas, todas aquelas risadas e aqueles carinhos reprimidos nunca fossem esquecidos.  Sempre disseram para que tomasse cuidado, pois as coisas sempre mudam e bla bla - e ela nunca foi acostumada com isso. Mas dessa vez era diferente, dizia ela. Tinha a certeza de ter conseguido plantar uma semente, mesmo que demorasse muito tempo para nascer. Estava cansada e descrente, e não pelas mudanças, mas pela maneira com que tudo estava acontecendo. Calma, pensava. Algumas flores demoram a brotar e não é por falta de água. Elas têm medo da luz. 


T.O.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

a casa das palavras



"na casa das palavras, sonhou Helena Villagra, chegavam os poetas. As 
palavras, guardadas em velhos frascos de cristal, esperavam pelos poetas e se 
ofereciam, loucas de vontade de ser escolhidas: elas rogavam aos poetas que as 
olhassem, as cheirassem, as tocassem, as provassem. Os poetas abriam os frascos, 
provavam palavras com o dedo e então lambiam os lábios ou fechavam a cara. Os 
poetas andavam em busca de palavras que não conheciam, e também buscavam 
palavras que conheciam e tinham perdido."

um dia eu re(encontro).





quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

sempre há

um luar.






Enquanto olhava para a lua, esperava um único sinal. O calor tornara a missão de dormir ainda mais difícil, mesmo depois de tantos goles de cerveja. Naquele dia isso pouco importava, ela poderia ficar ali por horas e horas esperando um único sopro de vento. Em vão. Havia a esperança de encontrar na lua uma parceira de conversas e desabafos; ou de silêncios se fosse preciso. E por ali ficou a noite inteira. Aquela frase do Saramago não saia da cabeça, "não nos vemos se não saímos de nós". Era isso? Precisava sair de si para se enxergar? Pois depois de tantas reflexões e emotividades, que costumam crescer durante o período de festas de fim de ano, ela finalmente poderia dizer que tinha se enxergado. Saiu de si por uns instantes - talvez tenham durado alguns meses - e pôde enfim se olhar. E há quanto tempo não se olhava.... Dessa vez a visão era mais profunda, como se começasse a se conhecer de novo. Inevitavelmente fez a retrospectiva daquele ano, cheio de tantas coisas comuns e outras tantas tão marcantes. O início vinha repleto de mergulhos profundos, num misto de ansiedade e novas descobertas, de intensidade e dedicação. Tudo o que queria era viver, mas não sabia exatamente como. Tomou decisões importantes, ainda presa a sua insegurança e medo de errar. E foram muitos os dias em que a comida não descia direito, no qual o sono era a melhor escolha para uma mente cansada. Pouco tempo depois foi enganada pelos próprios sentimentos, acordou sem uma parte de si. Era como se tivessem arrancado sua mão ou os dedos que lhe prendiam a outros braços. Tentou durante muito tempo trazer de volta a parte que lhe faltava, só ela saberia o seu esforço. Há pedaços que são cortados com tesouras grandes, daquelas de jardineiro, que tiram espinhos e podam o galho de uma só vez, diria seu melhor amigo. Ficara pensando se as flores sentem dor, se o líquido que escorre das plantas seria o seu choro, mas depois entendeu o que tantas músicas lhe diriam, tantos poemas lhe sussurravam durante o ano inteiro, principalmente no final dele. Os galhos são cortados, mas as flores voltam a crescer. E que lindas flores. Não poderiam ter nascido mais bonitas. Ela sempre acreditou que nada é por acaso na vida, e sabia agora que de fato tudo tem o seu momento. Ela, que passa e de graça distribui amores de cristais totais. Ela, que tantas vezes engoliu o salgado das lágrimas, agora podia sentir a única brisa daquela noite de calor. Ela, que não mais acredita no pra sempre, mas tem para si que as essências continuam intactas e o começo é sempre hoje. Feliz novo ano para ela.