Ele acordou irritado. Ouviu no rádio que São Paulo já amanhecia com significativos quilômetros de congestionamento. Xingou os metroviários por causa da greve, resmungou alguns palavrões sobre a situação deplorável em que a cidade se encontra, sobre a maldita Dilma e esses petistas. Tomou seu café, desceu para a garagem, entrou em seu carro, ligou o ar condicionado e hashtag partiu trabalho. No caminho, mais revolta com a tal greve que não cansa de atrapalhar vida dos cidadãos paulistanos, o direito de ir e vir e destrói os espaços públicos. Ele estava cansado da correria da cidade, reclamava da corrupção e só queria chegar em casa de novo, afinal, tinha esse direito após longas horas de trabalho. Pensava no final de semana quando fugiria para seu sítio no interior e tomaria uns drinques reclamando mais um pouco da política e dos vândalos que transformam a cidade em caos. Do povo brasileiro que não sabe se organizar nem para protestar, da vergonha de mostrar essa confusão para o mundo todo durante a Copa. Não percebia, no entanto, que aqueles tais grevistas malditos que não tinham o que fazer queriam exatamente chamar a atenção para o fato de que têm um papel muito importante dentro da dinâmica da cidade. Mas era muito mais fácil olhar para o próprio umbigo, culpar a população que não sabe se organizar e dizer que só quer trabalhar e seguir sua vida normalmente, porque o tempo não para, muito menos a quantidade de seus afazeres. Talvez fosse justamente esse o seu erro, botar a culpa nos outros, fechar-se para um mundo que parece muito distante, mas é o mesmo e está ali, basta olhar para o lado. A mesma cidade, a mesma rua, os mesmos espaços públicos, a mesma população. Mas ele, dentro do casulo, argumentava que não poderia simplesmente andar pelas ruas porque, além do transporte ser ruim, era tudo deveras violento. Então trabalhava muito para conseguir comprar um apartamento em um prédio que tivesse tudo, de cabeleireiro a restaurante, assim não precisaria se submeter a esses momentos de caos. Enquanto isso, as ruas ficavam mais vazias, e as janelas cada vez mais fechadas para a realidade.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
quinta-feira, 24 de abril de 2014
terça-feira, 15 de abril de 2014
somos nós
enquanto
ainda não sai o canto
que espera uma voz lá do fundo
um grito profano pro mundo
há um tanto de fala guardada
num canto de lá de dentro
porque o coração também gagueja
há nós que já foram desfeitos
outros tantos que temos nós,
que tememos
mas quando estamos a sós
vem a voz e o canto, o pranto
do eu que nós somos
T.O.
segunda-feira, 24 de março de 2014
meu tempo é quando
Quando o corpo fala, as perguntas se transformam em respostas extensas e cada gesto aparece como uma afirmação do que muitas vezes não é possível ser externalizado. quando a voz cala, pode-se entender os pequenos sons, como o da respiração intensa, enquanto os pelos do braço se recompõem. quando os olhos sorriem, os minutos se alongam e cada pedaço de silêncio traz a calma desejada. esses mesmos olhos que são capazes de aparecer repetidamente durante uma noite de son(h)o. quando o sorriso se alarga, já não se faz necessário entender - e todo aquele receio que habita a mente se transforma em vontade. ou saudade.
T.O.
T.O.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
há dias que a cabeça dá
tilte, o olho arde e o nó aparece na garganta. às vezes vem de brinde o triste sentimento
de frustração, como se, ao olhar no espelho, fosse sair uma mão que lhe desse
pequenos socos e não hesitasse em dizer: “olha aí, o que você fez”. ou o que não fez, o que me parece pior. há dias que o martelo
acerta o dedo, o mindinho do pé encontra repetidas vezes a quina da cama e a taça
de vinho cai na roupa branca. coisas evitáveis? talvez, não fosse uma possível tendência ao
desajeitamento. de qualquer forma, nessas ocasiões a raiva e dor aparecem quase
como um passarinho do relógio de cuco, apenas para dar um olá; e sabemos, não
são elas que incomodam - ainda que venham salgar um pouco mais o dia. o que dói
mesmo é sentir que nada naquele momento vai dar certo, talvez porque falte
criatividade, falte organização, falte principalmente ação, sobre confusão. sentir
que nenhuma palavra dita por alguém vai mudar o percurso daquele dia, sentir
que as ideias são inofensivas, ficam de molho durante dias, semanas, talvez meses,
e quem sabe quanto tempo continuarão por ali. eu tenho pena das ideias
inofensivas, essas que cozinham numa panela de pressão sem vapor, porque elas
não vão botar medo em ninguém e podem envelhecer, nunca cozer nem sequer sair pra
dizer que passaram do ponto. ideias inofensivas ficam guardadas, mas não conversam,
não aparecem pro mundo, e quando tentam aparecer, às vezes já foram descobertas
por outras pessoas – e, livres, não são mais inofensivas. chegam, acontecem,
apavoram. há dias que vem a frustração de perceber que esqueci as ideias na
panela, tentando cozinhar, enquanto outros já serviram o prato. então a cabeça
dá tilte, o olho arde e o nó aparece na garganta.
T.O.
T.O.
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